Quando olho para uma criança imersa em suas brincadeiras de faz de conta, percebo que ela não está apenas passando o tempo. Ela está construindo mundos possíveis, imaginando cenários onde tudo é viável e exercitando uma das capacidades mais humanas que existem: o ato de sonhar. Na infância, a realidade ainda não impõe limites rígidos, o que permite que a imaginação voe livremente por territórios ilimitados.
No entanto, o cotidiano muitas vezes pressiona os pequenos a adotarem uma postura prematuramente séria. Entre rotinas escolares apertadas e o excesso de estímulos digitais imediatos, o espaço para a fantasia acaba espremido. Valorizar o sonho infantil não significa apenas aceitar o devaneio, mas reconhecer que ele alimenta a criatividade e a resiliência emocional necessária para a vida adulta.
Quando incentivamos as crianças a idealizarem o futuro, oferecemos a elas ferramentas fundamentais para a resolução de problemas. Quem aprende a sonhar com realidades diferentes da atual desenvolve a capacidade de questionar o status quo e buscar inovação. A imaginação é o primeiro passo para qualquer transformação real na sociedade, aproximando-nos daquele cenário onde desejamos construir um mundo com menos barreiras e mais responsabilidade socioambiental.
Os adultos desempenham um papel central nesse processo, especialmente na prática docente. Ao professor cabe questionar os objetivos de trabalho e articular-se com outros educadores para transformar o ensino em algo além da mera transmissão de dados, garantindo que o conhecimento coletivo tenha um impacto real na vida dos alunos. Afinal, viver e educar exigem tomada de decisões constantes, onde nossas escolhas e avaliações revelam muito sobre nossos valores e nossa visão de mundo.
Nesse percurso, avaliar também é ensinar e aprender. A avaliação faz sentido quando é continuamente repensada para auxiliar professores, alunos e a comunidade a encontrarem fragilidades e potencialidades, permitindo uma educação de qualidade conectada à realidade. Validar as ideias mirabolantes das crianças, ouvir suas histórias sem julgamentos e garantir tempo livre para o tédio criativo fortalecem essa liberdade mental.
Portanto, precisamos olhar para os desejos infantis e para a nossa prática pedagógica com mais respeito e atenção. Um mundo que apoia seus jovens sonhadores e transforma a educação por meio da reflexão constante investe diretamente em uma geração capaz de inventar saídas para os desafios coletivos do amanhã. Deixar as crianças imaginarem voos altos é o melhor legado que podemos transmitir.
Referência:
LOPES, Antonia Osima; VEIGA, Ilma Passos Alencastro (Colab.). Repensando a didática. 25. ed. rev. e atual. Campinas: Papirus, 2007
